Publicado originalmente em 16/11/2006.
Você também é viciado nas crônicas e livros de Luis Fernando Verissimo? Pois saiba que não é o único. Faça o teste lendo aqui um trecho do terceiro capítulo do livro "Luis Fernando Verissimo - Humor & outras histórias", ensaio de Maria da Gloria Bordini, que está sendo publicado pelo Instituto Estadual do Livro, do Rio Grande do Sul.
Um cronista das Arábias
Maria da Glória Bordini
Com Luis Fernando, não se tem vez. Só parafraseando-o. Experimentando umas poucas vezes que seja a sua literatura, fica-se tão preso como esses "obsessivos e impertinentes que não largam o vício de viver", como ele diz na crônica "Viciados". Tanto é assim que os leitores do Sul não conseguem agüentar uma semana sem apanhar a
Zero Hora para lê-lo. E os brasileiros em geral espiam as bancas de revistas a ver se já chegou o novo número do jornal
O Globo com mais um texto que dói de engraçado ou que corta como um bisturi a realidade do país. Se Scherazade reconquistava a cada dia sua vida ao contar ao sultão uma nova história sem fim, Luis Fernando prende seus leitores, não pelo suspense, mas pelo talento de desenterrar do curso da vida o que nela há de contraditório sem perder o bom humor.
Cronista premiado com o título de Intelectual do Ano, em 1987, não acumula apenas distinções de entidades ligadas aos direitos humanos e à liberdade de imprensa, mas – o que importa mais - conquistou o maior público brasileiro que um humorista e um ensaísta já obtiveram desde a década de 1960. Luis Fernando Veríssimo, com aquele seu jeito recolhido de malandro por dentro, é unanimidade nacional. Seus leitores ou adoram, ou detestam o que escreve – e pela mesma razão: seu engajamento. Esse Verissimo não esconde suas opiniões, seja quanto à política, às ideologias, à cultura, às artes e, cronista que é, não teme que sua crítica se torne datada. É da natureza da crônica estampar o tempo e este torna tudo passageiro, inclusive retratos e notícias, se não forem cobertos pelos véus da imaginação.
Luis Fernando, na maioria das vezes, escapa dessa corrosão temporal porque possui uma imaginação para as correspondências. Não aquelas correspondências de Baudelaire, entre impressões dos sentidos, mas as que se alimentam de analogias inesperadas. Seus textos se constroem pela superposição de dois ou mais planos diferentes, em que transparece, como num sanduíche de vários vidros, uma semelhança que o leitor comum não perceberia. Assim, pode comparar FHC e Clinton, Hillary e ACM (louro), um berimbau e Marco Maciel, como em "Primo rico", de
Novas comédias da vida pública: a versão dos afogados e ironizar ao mesmo tempo, invertendo-as, as relações de dependência entre Brasil e Estados Unidos. Se esse momento histórico já se foi e o leitor não lembra das tentativas dos dois estadistas de se imporem pelo seu
savoir-faire liberal ao mundo, a reunião inusitada de todos esses ingredientes díspares no mesmo espaço de texto ainda continua fazendo efeito cômico e igualmente traz à memória atitudes que então mereciam denúncia e que podem retornar se esquecidas.
A crônica de Luis Fernando, entretanto, vai além da função de gatilho mais rápido do Oeste disparando sobre a História. Não que alvejar o momento seja uma empresa fácil – ele se evade e acertá-lo, sem matá-lo de vez, é uma arte que poucos alcançam e que é mais praticada com eficácia pelos romancistas e contistas. Estes, diante de um fato histórico, não o respeitam. Recortam-no de sua situação, cercam-no de outros entornos, torcem-no, preenchem os seus furos, alisam-no a contra-pêlo e conseguem imortalizá-lo, como o fazem, por exemplo, e só para ficar na mesma terra de origem do cronista, Moacyr Scliar, com
A festa no castelo ou
Dia de cães danados, Josué Guimarães com
A ferro e fogo ou
Tambores silenciosos e Erico Verissimo com
O Senhor Embaixador ou
Incidente em Antares.
Luis Fernando faz parte dessa mesma linhagem imaginosa. Cronista que é, de carteirinha e papel passado, a História é sua matéria-prima, mas nem sempre aparece tão explícita nos seus escritos. Como é fugitiva, esconde-se tão bem que por vezes o leitor não sabe se está diante de uma crônica ou de um conto. Diferenciar os dois gêneros hoje em dia está cada vez mais difícil, num tempo em que não parece haver mais territórios e sim apenas fronteiras que se ultrapassam a cada instante. Antes de cair na tentação de etiquetar o trabalho criativo de Luis Fernando de híbrido, termo que tanto serve para o milho e o tomate quanto para os textos de ficção contemporâneos, convém saber do que se está falando.
Uma crônica é tão inventada quanto um conto e ambos se aparentam pela extensão, em geral curta. Os dois podem fazer uso de um modo de dizer mais ou menos elaborado, mais ou menos coloquial, mais ou menos poético, mais ou menos subjetivo. No fundo, irmana-os a experiência do mundo, que está subjacente em qualquer vida, de escritor ou não. Essa experiência é sempre temporal, feita de sucessões de eventos, impressões, interpretações, lembranças, afetos. A diferença é que o escritor a metamorfoseia, dá-lhe novo corpo e fisionomia individuais, encontrando nela o que pode conter de interesse para muitos, de modo que já não é mais apenas dele, mas de todos.
Quando alguém escreve um conto, não tem obrigação com o que realmente acontece na vida fora da literatura. Narra-se uma história que poderia ter acontecido, se o leitor aceitar as regras do jogo ficcional que a fantasia criadora impõe. Por isso, uma barata pode se transformar em empregada doméstica (invertendo a
Metamorfose de Kafka), como na "Metamorfose" de Luis Fernando, de
Ed Mort. Aí aparecem todos os elementos da narrativa: um narrador (ou mais) conta eventos, de certa perspectiva, encadeando-os para resolver alguma carência que neles se manifesta, descreve cenários, caracteriza personagens, que falam direta ou indiretamente, tece comentários, cria simpatias ou antipatias, defende ou critica valores.
Alguém poderia ponderar: mas isso também acontece com os historiadores, dos quais o cronista é uma espécie. Eles igualmente narram, descrevem, caracterizam, dão uma ordenação aos fatos, utilizam diálogos e monólogos, adotam pontos de vista, assumem posições ideológicas e de denúncia. É verdade, e por isso torna-se difícil distinguir a crônica do conto. Entretanto, há um fator diferencial entre os dois gêneros. O cronista sempre está aderido a um acontecimento realmente existente. Não inventa fatos, mesmo quando toma emprestado da literatura um padrão metafórico inesperado, como faz Luis Fernando em "A grande mulher nua", do livro de mesmo título, em que figura as Américas num alvo corpo de mulher que se deita sobre o continente e é vítima impassível e inabalável de expedições colonizadoras e espoliadoras.
A crônica, além disso, nem sempre conta uma história, como o conto. Pode entretecer um comentário sobre um evento com partes narrativas ou com diálogos, pode desenvolver apenas uma reflexão ou propor um argumento a favor ou contra um fato. O que ela não pode deixar de lado é seu vínculo, mesmo que remoto, com a História. Veja-se, por exemplo, "Lição de economia", em
Zoeira, em que a idéia é que os economistas complicam o que é simples e pode ser ensinado como o bê-a-bá da cartilha. A partir daí, segue-se uma sucessão de lições recheadas de comentários em que as personagens Eva, Lulu, Au-Au e Vovô efetuam trocas, e os valores das mercadorias oscilam, assim como as mesadas.
Contos, portanto, fazem sobressair a invenção de acontecimentos, mesmo que alguns possam derivar da realidade histórica. Crônicas precisam se referir ao que de fato ocorre, apesar de poderem se valer de procedimentos literários, como terem um enredo, personagens ou uma linguagem poética. A fronteira entre esses dois gêneros, em Luis Fernando, é mais permeável do que a do México com os Estados Unidos. Por isso, há clandestinos e refugiados de lado a lado, sem que a Imigração possa impedir casamentos por conveniência ou por inclinação para fins de naturalização, e as conseqüentes miscigenações.
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