O Prêmio São Paulo de Literatura recebeu inscrição de 146 obras de 55 editoras e 19 autores independentes, com o total de dez finalistas: Beatriz Bracher; Wilson Bueno; Cristóvão Tezza; Manalton Braff; Bernardo Carvalho; Wesley Peres; Tatiana Salem Levy; Eduardo Baszczyn; Tiago Novaes e Cecilia Giannetti.
Os vencedores? Melhor livro do ano de 2007, autor estreante: Tatiana Salem Levy, por A chave de casa (Record, 208 pp., R$ 32). E Melhor Livro do ano de 2007: Crsitovão Tezza, por O filho eterno (Record, 224 pp., R$ 34) – ambos da Editora Record.
Cristovão Tezza foi o escritor mais premiado no ano de 2008, ganhador do Prêmio Jabuti, na categoria de Melhor Romance; Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) e o Prêmio de Literatura da Revista Bravo; além do Primeiro Prêmio São Paulo. A premiação de Tatiana Salem Levy foi a grande surpresa da primeira edição do prêmio mais bem remunerado da literatura brasileira: R$200 mil cada.
Confira também:
>> Entrevista exclusiva com Cristovão Tezza, realizada por Bruno Dorigatti, em setembro de 2007AQUI!
>> Entrevista exclusiva com Tatiana Salem Levy, publicada originalmente no BLOG CLICKINVERSOS, em dezembro de 2007:
TATIANA SALEM LEVY
MEMÓRIAS DE UMA TÍMIDA ESCRITORA
Por Ramon Mello
Tatiana Salem Levy. O nome da escritora ficou marcado em minha memória muito antes que eu tivesse acesso ao texto dela. Na época da publicação da antologia 25 mulheres que estão fazendo a literatura brasileira (Record), organizada por Luiz Ruffato, alguém mencionou esse nome que nunca esqueci.
Recentemente, tive a oportunidade de entrevista-la, na livraria Argumento, no Leblon, no Rio de Janeiro, enquanto tomávamos água mineral. Em pouco mais de uma hora de conversa, pude conhecer um pouco da tímida e bem-humorada escritora, que tem rosto de menina e experiência de gente graúda.
Tatiana tem dois livros publicados: A Experiência do Fora (Relume Dumará) e A Chave de Casa – este último foi publicado em Portugal pela editora Cotovia e no Brasil pela editora Record. Além disso, possui graduação, mestrado e doutorado em literatura e também é tradutora de francês – a jovem traduziu a biografia da filósofa alemã Haanah Arendt.
Qual a expectativa em relação a lançamento do seu livro no Brasil?
TATIANA SALEM LEVY - Expectativa eu não tenho, mas, na verdade, tenho vários desejos. Quero que o livro encontre vários leitores, esse é o maior desejo. Quando acabo de escrever um livro eu me distancio dele. Daqui a pouco vou estar desapegada da
A Chave de Casa. Mas volta e meia alguém escreve um e-mail dizendo que gostou do livro. Tenho pensamentos apaixonantes por livros.
O que te apaixona?
TATIANA SALEM LEVY - O inesperado. Algo diferente que me coloca em contato com o outro. Seu eu citar alguma coisa que me apaixone, já não vai ser possível eu me apaixonar. Paixão sempre pega a gente de surpresa.
O que é A Chave de Casa?
TATIANA SALEM LEVY - As pessoas têm que ler o livro para achar a resposta. Sempre que alguém me perguntam eu não respondo. Só respondo quando estou numa festa, já meio bêbada... (RISOS) Esse livro é uma tentativa de resgatar a herança e escolher, diante do que se recebe, aquilo que vale a pena.
Por que a atração pela memória?
TATIANA SALEM LEVY - Porque acredito que viagens e memórias podem dar ‘pano para manga’. A questão da imigração sempre foi muito presente na minha casa. Em algum momento eu achei que tinha que recontar essa história, para poder viver a minha história. Acho que é uma história minha, mas muitas pessoas têm histórias parecidas. E também acredito que há memórias que nascem com a gente. Por exemplo, eu não conheci os meus avós.
É uma homenagem aos seus avós?
TATIANA SALEM LEVY - Não sei... Simplesmente achei que essa herança familiar dava uma história, que podia tocar outras pessoas. Herdei deles o gosto pela viagem, conhecer outros lugares e outras culturas.
Você já morou na França e nos EUA. O que você guarda desses lugares?
TATIANA SALEM LEVY – Eu destacaria principalmente a situação do estrangeiro. Eu gosto de ver o outro com um olhar diferente. Em outro país nós agimos mais como espectadores, observamos mais. Foi ótimo para escrever. Mas isso também tem várias complicações, que mostram que realmente você é um estrangeiro. O lugar que está mais ligado com o meu campo de interesse é Paris, toda a minha leitura teórica é dos franceses.
Porque convidou a escritora Cintia Moscovich para escrever a orelha do seu livro?
TATIANA SALEM LEVY – Gosto do que ela escreve. Ela também tem essa coisa da herança, ela tem um livro em que também se dirige à mãe – mas de forma completamente diferente! A Cintia é muito mais bem-humorada do que eu, o texto dela é muito mais bem-humorado. Não a conheço pessoalmente, mas pedi aos meus editores porque ela também é da Record. Deu um certo medo, pois eu não sabia que se ela ia gostar ou não. Mas ela gostou, escreveu uma orelha linda.
Como surgiu esse interesse pela literatura?
TATIANA SALEM LEVY – Surgiu muito antes do que o interesse pela crítica. Desde pequena eu sabia que queria escrever. Sempre tive muitos livros em casa, tanto na casa da minha mãe como na casa do meu pai, acho que isso facilitou. Acredito que o interesse surgiu por causa de crises existências da adolescência. Tudo começou pela leitura, como era o que mais me interessava no mundo, então resolvi estudar Letras. Mas nunca estudei pensando que a formação acadêmica fosse me ajudar a ser escritora. Era um interesse distinto. Eu tenho, desde cedo, a atenção para criação e também para interpretação. Só que acabei juntando tudo, o meu romance é o resultado da minha tese de doutorado....
O seu romance é sua defesa de doutorado?
TATIANA SALEM LEVY – Sim. Foi a tese em que apresentei na PUC- Rio. Entrei no doutorado com um projeto teórico que não tinha nada a ver com o romance. Mas depois mudei de projeto teórico e comecei a estudar sobre o corpo do imigrante na literatura, o que tinha tudo a ver com o romance. Então comecei a fazer os dois ao mesmo tempo. Até que a minha orientadora pediu que eu entregasse o meu romance como tese. Resisti muito, até que me entreguei. O último romance da Adriana Lisboa, por exemplo, foi resultado da tese de doutorado dela. Na PUC –Rio foi o primeiro romance como tese, mas na UERJ já existem três ou quatro. Muitas pessoas têm feito isso.
Foi difícil a defesa?
TATIANA SALEM LEVY – Sim foi muito difícil. Tiveram professores que entraram no jogo, mas teve um professor que discordou da idéia.
E o livro A Experiência do Fora (Relume Dumará)?
TATIANA SALEM LEVY – Foi resultado da minha dissertação de mestrado (RISOS). Não perco tempo. Fiz um mestrado sobre um estudo de literatura na PUC – Rio.
O que proporciona mais prazer: a ficção ou a tradução?
TATIANA SALEM LEVY – Escrever romance, com toda certeza. O texto é meu, posso escolher que palavra usar, onde colocar o ponto. Mas tradução também é muito bom! Só depende do que se está traduzindo. Traduzir a biografia da Hannah (Arendt) foi fascinante, eu já conhecia bastante da história dela. Traduzir boa literatura é uma experiência incrível! Estou traduzindo um escritor francês, contemporâneo, que é excelente. De certa forma, acabamos reescrevendo o texto.
Como é sua relação com o universo acadêmico?
TATIANA SALEM LEVY - Acabei me distanciando da academia porque vejo muita repetição. Mas acredito que o meio acadêmico pode ser criativo também! Não acho que o pensamento teórico pode bloquear o processo de criação. O processo de criação é muito pessoal. Acho que o grande problema da academia é a repetição dos mesmos discursos.
Como é o seu processo de criação?
TATIANA SALEM LEVY - Só sento em frente no computador quando tenho algo para escrever. Às vezes, acho que demoro demais, não tenho pressa. Eu faço é muita revisão... Depois que eu termino faço mais revisão. (RISOS) Se eu fosse ler
A Chave de Casa novamente, acho que mudaria muitas coisas.
O que você pensa sobre a literatura contemporânea?
TATIANA SALEM LEVY - Acho que tem muita coisa boa sendo feita. Existe uma certa atenção da nossa geração para a literatura. Não sei se o que é produzido dá resultado comercial, mas tem muita coisa legal sendo produzida. Acho que tem até um excesso de produção, nunca foi tão fácil publicar. Gosto muito do Bernardo de Carvalho, Adriana Lisboa, Milton Hatoum, Cuenca, Paloma Vidal... São muitos escritores, sempre esqueço de alguém. E o melhor romance de língua portuguesa é
Grande Sertão Veredas.
Gosta de poesia?
TATIANA SALEM LEVY – Sim, adoro poesia, mas leio muito pouco. Prefiro a poesia brasileira. Quando escolho os autores de fora, prefiro ler em inglês e francês.
Você é muito tímida?
TATIANA SALEM LEVY – Sim, muito. O que mais angustia nas entrevistas é que eu sei que não estou falando nem a metade do que eu gostaria. Quando eu chego em casa, fico pensando no que poderia ter dito.
Você já está escrevendo o próximo livro. Do que se trata? Já tem nome?
TATIANA SALEM LEVY – É um romance. Há dois narradores que tiveram uma relação de amor com a mesma mulher, que é o objeto desejado e não tem voz. Não falo mais, é só isso...
Tem religião?
TATIANA SALEM LEVY – Não.
Acredita em Deus?
TATIANA SALEM LEVY – Não. (RISOS). É muito mais fácil acreditar em Deus quando a família é religiosa. Os meus pais eram completamente céticos. Eu tenho uma certa espiritualidade, não acredito que tudo está ao acaso, mas não acredito num Deus católico ou judaico.
É difícil publicar um livro?
TATIANA SALEM LEVY – Hoje em dia está cada vez mais fácil publicar. Mas eu tive muita sorte. Deus me ajudou... (RISOS) Não posso reclamar de nada, meu romance está publicado em Portugal e no Brasil por uma grande editora.
Você mostra o seu texto para alguém antes de publicar?
TATIANA SALEM LEVY – Sim, para muita gente. Na edição publicada em Portugal, tinha uma enorme lista de agradecimentos. Sempre mostro para os amigos escritores e não escritores, os editores...
O que diria para um jovem que deseja ser escritor?
TATIANA SALEM LEVY – Leia, leia, leia... Assim como se faz cinema assistindo a muitos filmes, na literatura deve-se ler muitos livros. Tem de ter muita coragem e um pouco de medo, para não perder a humildade. Mas nada disso é uma receita, estou apenas começando.
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