Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 29/03/2007.
Em quatro quartas-feiras, no Rio de Janeiro, evento Chappa Quente analisa novos caminhos da música, o chamado 'pós-jornalismo' e a revolução da web 2.0
A nova música não é a música nova. Preocupado em discutir tudo o que envolve a música para além de suas questões estéticas, de gênero e/ou estilos musicais, o
Música Chappa Quente colocou em pauta as transformações aceleradas pela tecnologia que a cada dia vai dando novas configurações à maneira que fazemos, ouvimos e consumimos música. E, como no Brasil, música e literatura têm um vínculo histórico inegável – resistente a modismos e aberto a inovações – o Portal Literal foi buscar no evento os novos caminhos musicais que podem vir a se cruzar com as letras.
Idealizado pelo
Sobremusica,
Tecnopop,
Rinoceronte e
Lunuz, em quatro quartas-feiras, o evento reúne alguns dos nomes que, de alguma forma, atuam como protagonistas neste novo cenário. São músicos, produtores, jornalistas, criadores de festivais e gravadoras, membros da Associação Brasileira de Produtores de Disco (ABPD) e da Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin), entre outras organizações, que discutiram e vão discutir os rumos do mercado independente, novas formas de consumo de música, direitos autorais, o "pós-jornalismo" emplacado pelos blogs e pela web 2.0, e novas plataformas on-line, como o
YouTube,
MySpace e os programas de troca de arquivos.
No primeiro dia do evento, 14 de março, a PUC-Rio foi palco de duas mesas, a primeira sobre "Cadeia Produtiva da Música no Estado do Rio de Janeiro" e a segunda sobre "Pós-jornalismo: blogs e internet 2.0". Pela manhã, Sydney Sanches, advogado e um dos responsáveis pelo estudo
Cadeia Produtiva da Economia da Música, Arthur Bezerra, do
Sebrae-RJ, Rodrigo Lariú, da gravadora independente
midsummer madness, e Bruno Levinson, organizador do
Humaitá Pra Peixe, debateram a importância do mercado musical para o estado do Rio. Sanches abriu a mesa com um rápido panorama da extensa pesquisa realizada a partir de 1999 e encerrada em 2002 pelo Instituto Gênesis sobre a Cadeia produtiva da economia da música.
Uma cadeia produtiva pode ser entendida como o fluxo de bens e serviços através de setores diretamente envolvidos, desde as fontes de matérias-primas até o consumidor final do produto. O trabalho – que constrói uma metodologia que poderá ser aplicada em outros setores da economia da cultura no estado – aponta para o papel relevante da música no Rio de Janeiro através dos grandes espetáculos que atrai, pelo fato de ser a sede de gravadoras, editoras, do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) e da Rede Globo, além de um dos principais destinos turísticos do país. O viés adotado como foco pela pesquisa foi a arrecadação tributária, que, se ainda gera alguns questionamentos sobre o que deixa de fora, não se pode deixar de considerar como um primeiro passo num amplo e dinâmico setor a ser pesquisado, ao fornecer o tamanho da economia da música, ainda que enviesado pela ausência da pirataria, por exemplo. As questões tecnológicas foram timidamente abordadas, como apontou Sanches, já que a pesquisa encerrou-se em 2002. A lamentar, o fato de que não houve seqüência, o que deveria ser feito regularmente para poder acompanhar a movimentação do setor.
Dados de 2000 apontam que a economia da cultura representava então 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país; isso no âmbito da iniciativa privada, a maioria com recursos próprios, com algumas renúncias fiscais, e chegava a 98% da população brasileira. Já os outros 99% do PIB, através de incentivos fiscais como a Lei Rouanet e a Lei do Audiovisual, entre outras, chegam a 10% da nossa população. Naquele ano, a música brasileira representava 80% daquela consumida no Brasil. Segundo Sanches, estes números devem estar hoje em 70%, com 30% de música estrangeira, sobretudo a cantada em inglês, que prepondera no planeta, inclusive na França, que se utiliza de medidas protecionistas.
Por fim, Sanches apontou a ausência de políticas públicas na economia da música fluminense. "É um Estado mecenas, e não um Estado investidor. A iniciativa privada movimenta a cadeia da música. O Estado não discute contrapartidas, foco de investimento, o que deveria, pois é uma renúncia da sociedade e não dele, Estado."
Na seqüência, Arthur Bezerra, falou sobre a nova Área de Desenvolvimento da Economia Criativa, criada em dezembro último pelo Sebrae/RJ, a primeira do país voltada especificamente para a cultura. Ainda em fase de prospecção e estudos,
Bezerra falou que espera também que os componentes da cadeia produtiva apareçam para apresentar projetos e sugerir alternativas. De antemão, apontou o principal gargalo da cadeia: a distribuição e comercialização.
Rodrigo Lariú é membro da diretoria da
Abrafin, criou o zine midsummer madness há 18 anos, depois transformado em selo em 1994, e vendia fitas cassetes a três reais. Hoje, a gravadora tem dezenas de bandas em seu catálogo, como a Pelvs, Nervoso e os Calmantes e Motormama, reunindo 70 títulos em EP e 18 em CD. A Abrafin reúne 22 festivais independentes do país inteiro, movimenta R$ 5 milhões ao ano, gera 5 mil empregos fixos e temporários e atrai um público de 300 mil pessoas. Basicamente engloba eventos que têm no rock o seu pilar. Porém, a intenção não é se restringir ao gênero, mas atrair outros eventos independentes de música, como já é o caso do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, realizado em Alto Paraíso, Goiás. Lariú relatou a experiência no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde esteve como convidado do Rumos, do Itaú Cultural, participando dos seminários que divulgam o projeto. Em Barra do Garça, a 550 km de Cuiabá e com 50 mil habitantes, o que lhe chamou atenção foram as motos com caixas de som, uma espécie de moto trio elétrico. "E é música o tempo inteiro, por toda a cidade."
Em Campo Grande e Cuiabá, o papo foi sobre a crise do modelo de mercado para a música. "Esse modelo está falindo. Por outro lado, o povo está fazendo, tentando modelos novos", diz Lariú sobre os festivais que vêm pipocando país afora nos últimos anos, como o Bananada e o Goiânia Noise, em Goiânia (GO), o Varadouro, em Rio Branco (AC), o Grito Rock Brasil e o Calango, em Cuiabá (MT). "Não é o futuro nem nada, mas estes festivais vêm de um modelo diferente, e estão tentando algo. E o Rio está ficando pra trás. Se é esse potencial todo que apregoam, deveriam ter mais experiências. O mais bacana da cadeia da música não está no Rio", assinala Lariú, que organiza há dez anos o festival carioca Algumas pessoas tentam te f****.
Arthur Bezerra se lembrou de outro pilar do modelo antigo que ainda insiste em não se reciclar e se adaptar aos novos tempos. "As rádios, das 24 horas que ficam no ar, em média, têm 12 horas de música e 12 de publicidade. Poderiam tocar de 400 a 500 músicas por dia, mas se restringem a 100, 150 músicas por ano." Por ano. Ou seja, para além do acesso à cultura, falta aos veículos tradicionais, a cultura da diversidade.
Bruno Levinson, organizador do Humaitá pra Peixe, tradicional festival de verão que acontece em janeiro no Rio, começou lamentando a ausência de Sérgio Sá Leitão, do BNDES, na mesa e disse o que pensa sobre a situação das multinacionais da indústria fonográfica, que ainda pautam a discussão em cima de como salvar o mercado que aí está. "Acho ótimo que elas se explodam, não vejo mais sentido no papel que desempenham e não vão fazer falta." Lembrou ainda que esta indústria foi criada para vender equipamentos, que era o que Thomas Edison desenvolveu no final do século passado e outros aperfeiçoaram. Assim como a Apple hoje tira seu lucro dos produtos e acessórios como o iPod, e não das músicas em mp3 que vende pelo iTunes a 99 centavos de dólar. O que, de certa maneira, vai contra outras empresas de eletroeletrônicos que fabricam celulares e impressoras, por exemplo. Neste caso, o produto tem um preço irrelevante, desde que você consuma muitos minutos no celular. E no caso da impressora, o litro de tinta, por exemplo, é mais caro que o litro de muito champanhe francês de respeito.
Com esse trajeto cada vez mais esfumaçado por onde caminham as gravadoras, alternativas vão aparecendo. A Starbucks, rede de café que abriu sua primeira loja no Brasil, em São Paulo, no final do ano passado, criou um selo, o
Hear Music, em parceria com o Concord Music Grooup, para vender em suas lojas coletâneas e discos de nomes conhecidos e outros nem tanto, como Neil Young, Aretha Franklin, Norah Jones, Belle & Sebastian. A grande cartada, porém, foi anunciada na última quarta-feira, 21 de março, durante o encontro anual dos acionistas da rede: Paul McCartney vai lançar seu próximo disco, em meados de 2007, pelo selo, o primeiro trabalho lançado exclusivamente por ele, mas que, neste caso, será também vendidos nas lojas de discos, alem das lojas de café. O investimento, neste caso, porém, continua ser em artistas de massa, consagrados e com retorno mais que garantido, como no caso do ex-Beatle.
No Brasil, a cachaça Sagatiba investiu em um artista que vem se dedicando à carreira internacional, o que vai de encontro aos interesses da marca, que, segundo o jornal londrino The Guardian, "se tornou a primeira marca de cachaça a se estabelecer propriamente fora do Brasil" e vendeu no ano passado 200 mil garrafas na Grã-Bretanha, o que representa 90% do mercado de cachaça da ilha. O artista é Seu Jorge, e com um jingle disfarçado de "música", que inclusive vai constar de seu próximo lançamento, vem divulgando a bebida pelas rádios dentro da programação musical. Passando pela linha tênue que separa programação musical de programação comercial, e do jabá, que, com o eufemismo da linguagem utilizada nos dias que correm, virou "investimentos em divulgação e marketing". E, segundo afirmou Bezerra, "como se diz por aí, metade do faturamento das rádios vem de anúncios. A outra metade viria do jabá".
Levinson acrescentou a experiência que teve neste ano com o Humaitá pra Peixe, que contou com patrocínio da Oi. A empresa de telefonia tinha a intenção de comercializar os áudios e vídeos das apresentações ao vivo – que constam do site para download – diretamente em celular. Mas ainda não foi dessa vez. Porém, um dado apresentado por ele dá outra indicação das mudanças de hábito na maneira de ouvir música pela qual estamos passando. "O Noites Cariocas, evento com grandes nomes, amplamente divulgado na mídia e que dura três, quatro meses, teve 13 mil acessos em wap [acesso à internet a partir de um telefone móvel]. O Humaitá pra Peixe, evento de nomes novos, que dura um mês, teve 10 mil acessos em wap. Isso indica essas mudanças de hábito. Hoje a música é muito mais a trilha sonora para nossa vidas. Poucos páram para ouvir música."
Sobre a ausência do representante do BNDES, Levinson afirmou já ser um agente desta cadeia produtiva. "Preciso de incentivo, apoio, parceria. A única reunião que tive com a prefeitura foi para eles reclamarem do logo, que não estava como eles queriam. Aí aparecem, como apareceram para taxar em 15% a banquinha do [Rodrigo] Lariú", que durante o HPP vende cds das bandas que tocam no evento, mas não apenas isso. Discos que dificilmente se encontram por aí, de bandas novas ou nem tanto, mas que dificilmente circulam – fisicamente, frise-se bem. Outro questionamento a respeito da atuação dos órgãos públicos é a falta de apoio para o fomento da música, aos modos das leis para o audiovisual, que é brindado com alguns milhões.
Sydney Sanches mencionou a experiência do distrito de Conservatória, município de Valença, situado na região sul-fluminense e que faz divisa com Minas Gerais. Conservatória é o primeiro Arranjo Produtivo Local (APL) de Entretenimento do Brasil. "A proposta é consolidar o APL para preservar, desenvolver, perpetuar e disseminar o patrimônio cultural e ambiental, assegurando o desenvolvimento sustentável de Conservatória e beneficiando empreendedores do local que atuam nos seguintes segmentos: serenata, música, literatura, artes plásticas, teatro, cinema, museus, artesanato, quilombolas, patrimônio arquitetônico, hotéis, pousadas, restaurantes, comércio, produção rural e ufologia", informa o
site do município. Entre os parceiros do APL estão o Governo do Estado e as Secretarias de Estado de Desenvolvimento Econômico, de Estado de Trabalho e Renda, de Estado de Turismo, o Sebrae-RJ, o Sesc-Rio de Janeiro, o Sistema Firjan, a Prefeitura Municipal de Valença e a Fundação Educacional Dom André Arcoverde (FAA). "É algo inédito, um selo de qualidade, uma indicação geográfica a uma localidade que se movimenta por conta da seresta, um estilo antigo, porém longe de ser velho", acrescentou Sanches.
Confira a seguda parte do artigo
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